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Esse é um fato relevante – mudanças na estrutura do Open Finance Brasileiro

Por Gabriel Pereira, fundador da Let’s Media.

Se o Open Finance fosse uma empresa de capital aberto, sem dúvida essa seria uma das notícias que precisariam ser divulgadas como um fato relevante para o mercado financeiro. No último dia trinta de outubro, o Banco Central anunciou a flexibilização dos prazos de renovação de consentimento e também a ampliação do período de validade do compartilhamento de dados. Essas mudanças têm um impacto significativo no cenário do Open Finance. 

O consentimento é o elemento essencial do ecossistema aberto e as alterações relacionadas aos seus fundamentos são de extrema importância. Um exemplo disso é o caso do Reino Unido, que inicialmente estabelecia um prazo máximo de 90 dias para a validade dos consentimentos, o que gerava uma grande fricção para os usuários.  

A modificação da “regra dos 90 dias” foi recebida com entusiasmo pelos defensores do Open Banking no Reino Unido, assim como pelos usuários. Aqui no Brasil, buscando lições aprendidas, já nascemos com um período de validade de até 12 meses. No entanto, rapidamente essa duração foi percebida como insuficiente – mas acredito que a questão seja mais complexa do que apenas uma data-limite. 

Antes das opiniões, vamos às mudanças: 

  • Os consentimentos agora podem ter prazos superiores a 12 meses, oferecendo aos usuários uma maior flexibilidade na gestão de suas informações financeiras. 
  • A renovação dos consentimentos poderá ser realizada sem a necessidade de redirecionamento para outra instituição, simplificando o processo dentro da própria entidade receptora dos dados, sem comprometer a segurança do ecossistema. 
  • A renovação simplificada terá início com as pessoas físicas e, no próximo ano, será estendida para as pessoas jurídicas, garantindo que todos os tipos de clientes possam desfrutar desse benefício. 
  • É importante ressaltar que, seguindo a premissa do Open Finance, o poder de decisão permanece nas mãos do titular dos dados, permitindo que o consentimento seja revogado a qualquer momento, reforçando a autonomia e o controle sobre as informações pessoais. 

Impactos  

A partir de agora, os clientes terão a opção de fornecer consentimento para o compartilhamento de seus dados financeiros por longos períodos, seguindo o exemplo do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central (SCR), que permite consultas por até 5 anos pelas empresas autorizadas pelos usuários. 

As empresas precisarão justificar de forma razoável a necessidade de prazos maiores, mas é provável que, da mesma forma que aconteceu com os prazos e objetivos dos consentimentos, o mercado acabe criando ofertas genéricas que possam ser aplicadas em “todos os casos” e pelo “máximo tempo possível”, para evitar penalidades no ecossistema. 

Espera-se que ocorra uma combinação estratégica entre a simplificação do processo de renovação e os novos prazos de validade, permitindo que as instituições realizem campanhas e substituam consentimentos de 12 meses por consentimentos de 60 meses, por exemplo, aumentando o LTV para a organização. 

Com mais de 41 milhões de consentimentos ativos, há uma ampla oportunidade a ser explorada. 

As empresas também precisarão se adaptar e prestar atenção nas novas formas de comunicação com os clientes, especialmente no que diz respeito à transparência sobre o escopo e duração do compartilhamento, assim como no envio de lembretes de que os dados continuam sendo compartilhados. Não é difícil imaginar que possam surgir incentivos por parte das Instituições Financeiras para que os clientes cancelem o compartilhamento de dados no futuro, levantando a questão se chegaremos a esse ponto. 

Riscos 

É fundamental levar em consideração o lado do consumidor nessa mudança. O objetivo é proporcionar maior comodidade aos clientes e não devemos esquecer desse foco. Se bem implementadas, as oportunidades resultantes dessa mudança podem trazer ganhos exponenciais para o ecossistema. 

No entanto, é importante ficar atento aos possíveis incentivos negativos que possam surgir, como prazos indiscriminados, consentimentos genéricos, uso indevido dos dados e outros riscos. 

As baixas taxas de renovação no Open Finance não se devem apenas à fricção no processo, mas também a clientes que não perceberam benefícios ou outros fatores. Essas questões também devem ser abordadas se desejamos que o Open Finance atinja seu propósito final.  

Oportunidades 

A partir de agora, as instituições terão a oportunidade de direcionar menos esforços em campanhas de renovação de consentimento e concentrar mais recursos em gerar valor para o cliente e mantê-lo em sua base. 

Essa mudança estrutural representa um avanço no longo prazo, resolvendo de uma vez por todas uma dor existente e liberando as equipes para se concentrarem em outros desafios. A escassez de recursos e os constantes ajustes são obstáculos enfrentados pelo Open Finance, pois consomem energias que poderiam ser usadas para criar casos de uso. 

Essa abordagem representa um ganha-ganha para todo o ecossistema. 

Reflexões 

Será que deveríamos implementar lembretes para clientes que possuem consentimentos ativos há muito tempo? Esses clientes que podem ter “esquecido” que deram consentimento podem se tornar um problema significativo? Como podemos abordar essas questões? 

A partir de agora, podemos mudar como olhamos para os consentimentos. Em vez de considerá-los como “safras”, devemos analisar o “tempo de vida” dos consentimentos, o churn (cancelamento de consentimentos), a saúde desses consentimentos, consentimentos sem ofertas, consentimentos beneficiados por ofertas e consentimentos que aproveitaram de novas ofertas. Também podemos explorar outras abordagens para qualificá-los internamente. 

Vamos desenvolver essas ideias em conjunto, pois, sem dúvida, essa é uma questão relevante que merece nossa atenção. 

Vamos amadurecendo os pensamentos em conjunto, porque sem dúvida esse é um fato relevante, isso é. 

 

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